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domingo, 20 de agosto de 2017

As três amarras


As primeiras amarras eram coloridas, acolhedoras e quentes. Sequer parecia que eu estava presa. Nestas eu permaneci por pouco tempo. 
Então essas foram trocadas por outras. Estas, eram de prata e me fazia sentir um pouco menos confortável do que a primeira, mas dava a sensação do pertencer. Nestas, por sua vez fiquei por mais tempo. Apesar de uma cor apenas, era brilhante e refletia o futuro pela frente; as vezes também via reflexos vermelhos das rosas que vinham me visitar. 
Subitamente essas amarras começaram a realmente me fazer sentir como amarras: elas apertavam, doíam, prendiam e mandavam. E por mais que eu cogitasse sair, decidia por me ajustar dentro dela e ali ficar, com as rosas amigas. Até que não pude mais ficar. 
Então percebi as marcas, marcas estas que mesmo simbolizando a dor me fizeram voltar, e assim o fiz. 
Mas sequer pude vislumbrar as amarras prateadas ou as rosas vermelhas. 
Desta vez, as amarras eram sombrias e nunca confortáveis. Machucavam, me faziam sangrar; e por muitas vezes sangrei até perder a consciência. E assim sendo, me machuquei. Talvez eu tenha me ferido mais que as amarras em si, mas me feri. Me feri e quase morri. 
Mas cá estou, do lado de fora. Contemplo sozinha o caminho que fiz até estar fora das amarras e, honestamente, não é bonito de se ver, afinal liberação nunca é fácil ou amigável. 

O que quero dizer no fim de tudo é que tais amarras, por mais bonitas que possam parecer, não passam de apenas uma bela visão. 

quarta-feira, 27 de julho de 2016

O ser ou não ser é tão complicado assim?

Me perco em pensamentos, analiso pequenas partes da minha vida com cuidado, como se fossem pequenos pedaços de vidro, pego com cuidado. Observo bem. Observo e vejo que seu contexto ali se encontra tão perdido, que não consigo compreender qual o desejo de outrora.
Teria sido eu mais bonita, magra, inteligente ou forte? Teria sido eu um alguém que tomaria melhores decisões antes? “Não sei dizer se outrora foi tão melhor”.
 A bagunça do coração descontrolado que sou, toma o que eu deveria ser, mas afinal, o que é o sou? Talvez nunca soubera quem sou e jamais saberei quem vou ser, isso é perturbador? Perturbações momentâneas de uma mente bagunçada nada mais é que rotineiro.
Teria eu sido feliz outrora? Teria eu feito as melhores escolhas? E se as fiz, por que é que neste ponto já não compreendo mais o que faço ou devo deixar de fazer, afinal, qual o plano e por que não me lembro dele?




Qual seria o brilho de uma mente sem desejos?

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Casca

                  Ás vezes as mudanças vem mais rápido do que esperamos, e aí nos sobra apenas as lembranças do que eram antes… Será que eram mesmo?
O passado sempre está ali, mostrando quão boas as coisas foram, mas… E se for só comigo que isso acontece? Não compreendo o porquê das pessoas mudarem, estagnarem, pararem no tempo de forma tão ridícula que não se vê mais nada além de… De quê?
                  Acho graça das pessoas que têm um certo tipo de “casca”. Elas se escondem naquilo e simplesmente ficam ali. Um dia essa casca fica velha, e essa pessoa precisa de algo para manter as mentiras, o que é um tanto quanto difícil, já que algumas coisas precisarão ser reformuladas, repaginadas. Ainda assim, a pessoa não se deixa largar das mentiras e as veste, mas infelizmente já não servem mais.
               Aí é o momento que se percebe as mudanças, porque as mentiras não podem ser mantidas e não há quem as sustente. Então, surpreende o outro. Nem sempre por não ser uma pessoa boa, mas sim, por ter mentido aquele tempo todo.

domingo, 3 de agosto de 2014

A manhã seguinte

            Como combinado, às 16h eu o esperava na cafeteria. Era uma tarde fria, a cafeteria era uma antiga casa que ficava no centro da cidade. Bem decorada, tinha um tom vintage acolhedor. Tomo meu cappuccino enquanto espero por Jonathan. 
Após uma espera de 10 minutos aproximadamente, ele chega e toma seu lugar à minha frente. 

            - Qual informação você tem?

            - Jonathan, tem certeza de que não foi seguido?
           - Tenho. Embora Karen tenha parecido um pouco desconfiada quanto minha saída ao centro num dia como este.
         
             - Encontrei uma carta de Alice.

            Então tiro o papel de dentro do bolso do meu casaco, depois de o papel todo amassado a carta parecia ainda mais desesperadora, as letras escritas com pressa e de forma irregular era assustadora. Ainda um pouco apreenssiva leio em voz alta: 


                  
 "Sarah,

Não tenho muito tempo, gostaria de ter conseguido entregar esta carta
mas com a força dos deuses e o destino em meu favor você a encontrará.
Karen tem tramado algo com Henry, creio que não estou segura aqui, as cartas 
me revelaram uma morte, não tenho certeza, mas creio que seja minha... 
Caso eu já não esteja viva quando encontrar esta carta, por favor, cuide de Jonathan. 
Confio apenas em ti para isto. 
Não deixe que saiam imunes, não se trata só de algo passional, é algo muito pior! 
Karen é uma mulher suja à procura de dinheiro, matará Henry em seguida.
Salve Jonathan, Henry também, se puder. 
Que os deuses te acompanhem...

Alice. "

              
          Termino de ler, Jonathan me encara ainda mais suplicante que quando me contara sobre o assassinato de Alice. 

          - Eles planejam fugir para Arjäng esta noite. 

          - Precisamos impedí-los...

          - Nós iremos, prometo.

         Jonathan se aproxima e me beija os lábios. Não era exatamente um beijo apaixonado, mais me pareceu uma forma de gratidão, era doce, quase inebriante.

         A noite chegou e o plano estava quase completo. No jantar eu serviria uma taça de vinho envenenada, depois de sumir com os corpos, Jonathan e eu embarcaríamos no lugar de Karen e seu pai. Dessa forma pareceria suicídio pós assassinato, não poderíamos ser incriminados.
        O jantar seguiu como o combinado, as taças estavam postas à mesa nos lugares certos. Todos riam e conversavam, a morte de Alice nem parecia ter acontecido dois dias atrás... Jonathan se levanta e propõe um brinde.

          - Gostaria de brindar à vida. Graças aos deuses ainda estamos vivos e bem. Cheers!

         - À vida. 

       E após um sorriso muito bem disfarçado acompanho à todos... Subitamente sinto uma tontura e caio sentada. Todos me observam, Jonathan tinha um olhar assustado; Karen e Henry me olhavam com um tom de vitória, não conseguia compreender.

        - Achou mesmo que cairíamos nessa? Que tola.

        - Alice escolheu muito mal sua defensora. 

        - Karen. Pai. O que significa isso?

        - Vai dizer que não sabe? - Disse Karen, tirando de dentro do bolso direito um pequeno gravador.

      "Então este será o plano, Sarah. Depois de envenená-los nós poderemos fugir
e reconstruir nossas vidas. Eu prometo..."

         - Péssimo plano, querido. - Ria-se Karen enquanto puxava uma pistola calibre 22 de dentro da roupa.

         Naquele momento eu não sabia mais o que sentia, meu corpo estava fraco, conseguia sentir o sangue subindo à cabeça de tanto ódio. Como foi que isso aconteceu? Tudo estava ficando tão turvo, mal conseguia respirar... Tudo está ficando escuro...
Um som de tiro! Jonathan está sangrando, meu corpo imóvel. Karen ri de forma tão vil que parece a visão do próprio Diabo.
"Meus deuses, o que faço." se repetia infinitamente na minha cabeça, que parecia a única coisa que funcionava em mim. Fecho os olhos, me preparo para partir, finalmente.

                                                                     ...

        Acordo, ofegante. Fora o pior pesadelo da minha vida. Me levanto e encontro um pequeno bilhete, vou ao telefone.

          - Jonathan? Por favor, Alice está?

           Apenas um silêncio do outro lado.

         - Jonathan..?

         - Minha mãe foi assassinada esta noite.




                                                                 Fim. 

O último ato

"Minha mãe viu Karen matá-la..."

            Ecoava na minha cabeça e não me deixava dormir, não entendo porque ela faria isso, Alice sempre gostou tanto dela... 
A noite fria de outono parecia o cenário perfeito. As folhas caídas no jardim pareciam saber que alguém acabara de morrer, o vento varria meus cabelos para longe do rosto. Eu continuo parada naquela varanda, tão absorta que parecia que a qualquer momento pularia. Ouço alguns passos e sigo com tanto cuidado quanto poderia tomar.


             - Karen, precisamos fugir, rápido.
             
             - Dessa forma saberão que fomos nós, idiota.
      
             - Mas não podemos ficar aqui por muito tempo... Existem provas... Ou acha que Alice sabendo o que você iria fazer não deixaria nenhuma evidência?

              - Tem razão. Mas como faremos?

              - Amanhã, antes do amanhecer embarcaremos para a Europa, acredito em Arjäng não nos encontrarão.


           Ao fim desta ultima fala, houve um beijo longo e apaixonado. Mas... Esta não era a voz de Jonathan. Era Henry!
Volto correndo para o quarto, preciso dizer ao Jonathan o que vi... Ele pode pensar que estou mentindo! Deuses! Que faço? Toda essa trama está me deixando assustada, não entendo como poderia acontecer de tal forma. Por que fariam isso? 
De fato Jonathan dizia que Karen e seu pai passavam muito tempo sozinhos, Henry sempre foi professor de piano então creio que essa sempre foi a desculpa. 

Por fim prefiro tentar dormir e ver como poderei dividir esta informação no dia seguinte...

           Acordo na manhã seguinte um tanto quanto agitada, rapidamente me arrumo e vou para a cozinha, preciso ainda preparar o café da manhã. Que raiva! Quanta vontade me dava de envenená-los! Mas preciso manter a calma e procurar por evidências, como Henry dissera na noite passada, é provavel que haja alguma.
Aproveito que todos ainda dormem e vou para a sala de Alice, onde ela guardava seus artefatos mágicos, como ela mesma chamava, e onde também recebia suas clientes. Me parece que desde que ela foi morta ninguém ousou entrar ali, tudo estava exatamente como sempre...
          Me movimento cuidadosamente, finalmente fechando a porta atrás de mim. Tudo estava na mesma bagunça habitual, exceto por uma caixa, era a única coisa que estava por cima daquela mesa em que normalmente estavam espalhadas as cartas de tarot. Pego a caixa, parecia um alvo fácil demais. Se havia alguma coisa sobre sua morte, ela queria mesmo que qualquer pessoa encontrasse, mas ao mesmo tempo, seria a coisa mais idiota a se fazer: está exposto demais.
Haviam algumas chaves penduradas na parede próxima, a facilidade com que encontrei não foi exatamente um teste à minha inteligência. Abro a caixa. Tudo que tinha ali eram cartas que ela lia para os clientes. Maldição!
                                                                        ...
         
          Sem tempo para procurar por mais nada, saio da sala deixando a caixa em cima da mesa.

                                                              THUF! CRAC!

          Com um pulo de susto me volto para a caixa, agora totalmente despedaçada no chão. Percebo alguns itens que não havia visto da outra vez, então volto à examiná-los. A caixa não havia se quebrado, era um fundo falso. E finalmente o que eu procurava, a carta. Naquele momento imaginei que Alice era óbvia demais.

                                                                            "Sarah,

Não tenho muito tempo, gostaria de ter conseguido entregar esta carta
mas com a força dos deuses e o destino em meu favor você a encontrará..."

          Um som interrompe minha leitura. Provavelmente alguém acordou. Rapidamente escondo a carta entre minhas roupas e vou para a cozinha. Por sorte era Jonathan que acabara de acordar.


           - Não a encontrei em seu quarto. Bom dia.
      
           - Estive procurando algumas coisas. Tenho informações úteis. 

           - Sobre o que te disse noite passada?
        
           - Sim.

          E novamente surge Karen, me interrompendo.

            - Bom dia, querido! 

            - Bom dia.

          Volto a cozinha, faço o café da manhã. Ainda com tantas coisas na cabeça e sem saber como colocá-las em prática, encontro a solução perfeita. Um bilhete. Deixando o café para servir por último, deixo um pequeno recado sob a xícara de Jonathan. 

              "Encontre-me às 16h na cafeteria onde nos conhecemos. 
Este será o último ato desta trama."

domingo, 27 de julho de 2014

A dama e o cachecol

        Eu caminho pelas ruas, vejo pessoas e ouço carros, meus sapatos insistem em se fazer ouvir.

   TOC! TOC! TOC! TOC!
      
        Calem-se, pés! Não vês que tento pensar?!
        De qualquer forma, sigo. O vento acaricia meu rosto, remete aos dias de praia, mas agora, o que sinto é a poluição da cidade invadindo minhas narinas e pulmões.
Lembro do que há! 
Lembro da tua mão tão nervosa segurando a minha pela primeira vez... Sê feliz! Sê feliz, mesmo que para sê-lo preciso for que eu parta!
Ainda ouço os carros, vejo as pessoas, sinto a poluição. É tudo tão cinza! O céu, o chão, as pessoas, minhas roupas. Parece um uniforme de cidadão, algo assim.

Sinto sua falta...

- RECOMPONHA-SE! - Disse o cachecol logo abaixo do meu rosto.

- Tu não mandas em mim, és uma peça de roupa! Eu quem mando, eu que te uso!

- Mas sem mim você passa frio! - retrucou - De tantas lágrimas que sequei, estou cansado! Pare já! Pensas que vai chorar pra sempre por ele? Que tens na cabeça?!

Não entendo porquê agora deu para reprimir meus sentimentos. Devia largá-lo em um brechó qualquer!



Mas bem, quem é ele?
                                      Meu tempo de sanidade...
                                                                                          O cachecol, meu psiquiatra...
                                                                                                  E eu a paciente.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

A Dama de Preto


 Mais um dia se passou, apenas vi as trocas de luzes no céu...

           É engraçado esse cárcere de mim, o aprisionamento do eu.
   
Eu, esta garota calada.
         
         A solidão daqui é uma coisa engraçada, ela é silente e sempre me sorri, sabendo quando penso em você, então me abraça. É caridosa, gentil talvez.

          Embora torturante, gosto de sua companhia, é um anestésico para esse estado de morte súbita nessa casa vazia, como uma boa dose de lidocaína na pele antes de perfurá-la, algo assim.
           De tanto ficar aqui, parece que casei-me com esta sempre presente mulher, porém ela não está aqui. Isso faz sentido?

           Magra, tão magra que diria que tem um corpo anoréxico. De dentes amarelos sorri a alegria que não tem, sempre com um cigarro entre os dedos e uma xícara de café posta à sua frente. Fala. Fala friamente, não por estar amargurada, mas pela falta de emoções e sentimentos que talvez morreram ainda na juventude.


         Mas ainda ama! Ama com uma doçura pueril, um destaque tão marcante quanto o batom vermelho habitual naquele emaranhado preto e branco de cabelos e pele. 
Tão minha! Sim. Tão minha que faz parte de mim.






Minha doce solidão.
Minha dama de preto.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

A cena

    Imagine só... Sua mãe morta.

            Você, inconsolável, sentado à beira do sofá, com sua doce amada, de cabelos negros, ao seu lado. Aproximei-me subitamente, sem expressão no rosto. Palavras nunca diriam o que sentia, porém, ainda que completamente absurdo, naquele momento, não sentia. Sentia nada. Seu pai, completamente absorto naquela imagem de sua esposa ao chão, como se ela ainda estivesse ali, morta, porém com o sangue quente.

            - Por que me chamou aqui?

            - Minha mãe gostaria que viesse.

            - Desnecessário usá-la como desculpa.

            Enquanto rumava à porta, minha cabeça vagueava num transe anestésico que não me deixava perceber o que acontecera ali. Um assassinato. Um homem recém-formado acabara órfão de mãe e seu pai acabara viúvo. Karen movia-se agitadamente de um lado para o outro da sala, com seus belos cachos reluzindo entre a pouca luz que passava pela cortina semicerrada; eu a observava com desdém. Por que não se adequava àquela situação e simplesmente aquietava-se, empoleirada no braço do sofá como eu a encontrei quando cheguei? Por que estava tão inquieta?

            - Sarah... Precisamos conversar.

            - Jonathan... Não temos mais nada para conversar, cuide de sua noiva e de seu pai. Henry está péssimo, eu bem que gostaria de ajudar, mas não sou mais membro da família, Karen é.

            E, saindo, fui segurada pelo braço; a força não era agressiva, era suplicante.

            - O que quer...?

            - Por favor, fique.

            Karen parecia um tanto quanto calma... Calma demais. Naquela noite cuidei de fazer o jantar, aquela mulher não tinha o mínimo dote culinário, embora fosse rechonchuda como uma porca. Pobre Henry, sequer tocou a comida... Durante o jantar, houve alguns olhares um tanto inquietantes. Henry, melancólico, brincava com a comida em seu prato como uma criança que tenta pular a refeição para a sobremesa; Karen me observava de tal forma que parecia me cortar em pedaços e Jonathan, que se apressava em comer, logo deixou a mesa. Retirei-me em seguida. Karen me seguiu.

            - O que quer aqui?! Você não é bem-vinda nesta casa, Sarah.

            - Imaginei que não. Porém, até que realmente se case com Jonathan, esta casa não te pertence. Henry precisa de alguém que saiba cuidar dele. Creio que ele confie mais em mim.

            - Apenas vá.

            - Eu até iria, mas Jonathan disse que havia algo a tratar comigo.

            Ah! Sim. Aquela sensação... Adorava despertar o ódio da doce e gentil Karen. Segui para a varanda dos fundos aonde Jonathan fumava lentamente um cigarro. Levou um susto quando lhe toquei no ombro.

            - Oh! Creio que devia ter-me anunciado...

            - Não seja irônica, Sarah... Você não tem ideia do que tem acontecido aqui. Minha mãe não era só uma cartomante.

            - O que quer dizer com isso? Se vai dizer que ela estava certa sobre nosso casamento, sinto muito, mas...

            - A Karen... Ela...

            Subitamente, Karen apareceu, pôs-se de pé ao lado da porta.

            - O que ia dizer sobre mim, querido?

            - Estava dizendo a Sarah que talvez você gostasse de se juntar ela nessas... Hum... Coisas de mulher.

            - Ah! Claro! No dia em que ela souber se portar como uma. Querido, venha logo para a cama, sim?

            - Me deixe terminar o cigarro e já vou.

            Karen saiu deitando-me um último olhar como quem me desejava morta naquele exato momento. Jonathan parecia temeroso, como quem vê um assassino ardiloso debaixo do vestido fino e dos fitilhos no cabelo. Retomou o assunto, sussurrando, com o olhar em pânico.

            - Minha mãe viu Karen matá-la...

                                                                                           
                                                                                                   Continua...

terça-feira, 20 de maio de 2014

Fundo do poço

Ao ódio gratuito que você tanto alimenta
E toda essa guerra que você tenta
E tenta sozinho, pois é assim que se sente
Se debatendo como quem se afoga no mar

Passa dias e noites pensando em ser notado
Pois sabe que não é nada além partícula no ar
Poeira da mesa esquecida de uma casa abandonada
Pedaço de qualquer coisa indesejável

Tão deplorável que ainda precisa recorrer ao que lhe desagrada
Para se sentir mais uma vez vivo no tempo
Desvaloriza o que tem e corre à ser desvalorizado por outrém
Tal ato que envergonha e definha

Mas o que é você além do palhaço sem graça
O doce sem açúcar ou comida sem sal?
Tampouco deveria continuar vivo
Por ser tão inútil que parece-me mais um desperdício de oxigênio

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Every single night

A cada noite eu me deito, olho para o teto e é como se ele me refletisse e eu pudesse ver a mim mesma. A cada noite eu vejo como você se aproximou de mim e me quebrou inteira por dentro sem que eu percebesse que meu peito estava aberto e frágil.
Então eu olho por um tempo, coloco alguma música para tocar, algo que me lembre bem de você. E sinto como se estivesse do seu lado, é estranho.
Cada noite é uma briga comigo mesma. Como sou ingênua e teimosa, tsc.
Ainda imagino coisas impossíveis e salvo pessoas imaginárias de gente ruim, ainda penso em como poderiam ser as coisas que eu nunca vivi.
Era uma vida inteira.


Eu só quero poder sentir tudo novamente...


Então eu olho através daquele coração novamente partido, ele sangra em pequenas gotas, como se já não houvesse mais o que sangrar. A visão de fora disso parece tão patética e indiferente, nem parece ser comigo.
Vai ver já não sinto nada.


Mas eu quero sentir tudo novamente...


A cada noite é uma guerra, onde você me bombardeia com travesseiros, me assassina com risos e logo depois me ressuscita com o triste fim. E então eu observo o buraco em que estou, tão fundo que já não consigo ver a luz lá no alto.
Então chega o dia, meu espelho imaginário desaparece e eu finalmente vou dormir, pedindo uma trégua ao meu cérebro.



Eu queria poder sentir tudo.
Eu queria poder ser tudo.




 [Texto inspirado em "Every Single Night" Fiona Apple]

quinta-feira, 28 de março de 2013

Sociopatia


Ao olhar para o passado, ainda tenho pena daquela jovem eu, ainda vívida, que não sabia o que era a dor de um falso amor.
Era lamentável, sim, lamentável, o fato de que, eu sorria e sofria pela mesma pessoa, que ainda que, jogando comigo, era meu amado.
Passava noites em claro, pensando no que havia de errado comigo, o por que de estar sendo desperdiçada, com todo aquele amor dentro de mim, sendo jogada fora por alguém que dizia fervorosamente me amar. Um amor não sincero, impuro.
"Oh pequena" ainda penso eu, "por que não foge dessas garras cruéis?". Talvez seja por isso que há quem diga que o amor é cego, que pelo amor se mata e se morre, só me pergunto: Por que?
Não é este sentimento que move montanhas e nos faz sentir perfeitos, ainda que, ao ver do outro?
O sentimento de completar o completo, o desejo sem fim... Talvez eu desconheça tal sentimento.
A inércia que devasta tudo por dentro, a calmaria da depressão, a dor que não se sente.
Eram perturbadoras aquelas noites, mas o mais engraçado era que, mesmo eu precisando de consolo, tinha forças para consolar meu amigo, que também sofria por amores.
Sentia-me fraca por ser forte pelos outro, mas não por mim. 
Uma pessoa uma vez disse "Seja forte no espírito, seja forte no desejo. Forte o bastante para suportar qualquer sacrifício...". Era uma grande frase. Dava-me força...

domingo, 13 de janeiro de 2013

Uma carta, uma memória, um adeus.

Hoje recebi sua carta, vermelha de sangue.
Li cada parte com lágrimas percorrendo meu rosto,
Vejo que nada é o que achei que um dia foi.
"Palavras são como o vento" creio que já deva ter ouvido isso antes...
Quantos "eu te amo" foram jogados ao vento e capturados (infelizmente) pelos meus ouvidos?
Quantos dias em um falso elísio vivi?
Não importa seus movimentos agora, ações ou palavras,
O passado não pode ser alterado, nunca poderá.
Lembro-me dos dias de sol, dos carinhos, das palavras doces...
Mas tudo o que me resta agora, são os dias de chuva, destruindo o que restou de mim.

sábado, 12 de janeiro de 2013

So you think you know me now?

Hoje, um pequeno papel, uma mensagem.
Algo escrito, palavras desconexas.
Meu coração partido, e com ele o seu mundo,
Fora derrubado como um pequeno castelo de cartas.
E neste exato momento vejo você escrevendo,
Prometendo, chorando..
Uma pequena carta fora deixada, mas nunca foi lida.
E nela uma mensagem, agora não mais importante, a mensagem lhe fora negada.
Minha vida agora a um cavalheiro confiada, lhe foi tirada com a brutalidade de um leão.
A única memória fora destruída com fogo,
E com ela, minha alma.
O código de honra fora quebrado,
A promessa esquecida, as palavras apagadas.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Welcome to the world

Acho que é assim...
Quando se está sozinho, deve ser exatamente assim...
Quando não há ninguém e você se olha no espelho,
o que vê?
Lembre-se, o espelho pode mentir pois não mostra o que há por dentro..
Porém, quando nos esforçamos para que o interior seja mostrado, 
torna-se uma mentira?
O que faz de nós pessoas?
Nosso interior ou o exterior completamente alterado pela massa de manipulação maldita?
Eu não faço a mínima ideia... Neste louco mundo não podemos confiar nem em nós mesmos...
Bem vindo...
Ao mundo real!

terça-feira, 26 de junho de 2012

My last goodbye

Simplesmente me entreguei a você.
Nunca lhe perguntei o que faria comigo.
Simplesmente me entreguei...
Nunca pensei que algo pudesse me atingir enquanto estivesse ao seu lado, imponente, forte e bravo cavalheiro.
Minh'alma desde então sentiu-se segura, até descobrir quem você realmente era...
Uma imagem forma-se em minha mente.
É você, vindo em minha direção.
Enquanto andava fazia o sol parecer brilhar por você.
Um abraço e em seguida as lágrimas...
Abro os olhos e percebo que não é real.
Você está partindo, partindo para sempre.
Então eu corro, o abraço e peço: Por favor, não vá!
Você sem ao menos olhar para mim se livra de meus braços e parte...
Porque ? Me perguntava inúmeras vezes enquanto me encaminhava para minha despedida final.
Mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa! 
E chorando então, encaminho-me á estação.
Onde me despeço da minha unica boa parte,
Que já não vivia mais em mim.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Um poema (?)


Meu mundo está ruindo 
Vejo as colunas desabarem sobre mim
Onde está você?
Creio que sozinha não irei conseguir segurar 
As paredes vão caindo, caindo...

Você se foi, agora nada resta.