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domingo, 27 de julho de 2014

A dama e o cachecol

        Eu caminho pelas ruas, vejo pessoas e ouço carros, meus sapatos insistem em se fazer ouvir.

   TOC! TOC! TOC! TOC!
      
        Calem-se, pés! Não vês que tento pensar?!
        De qualquer forma, sigo. O vento acaricia meu rosto, remete aos dias de praia, mas agora, o que sinto é a poluição da cidade invadindo minhas narinas e pulmões.
Lembro do que há! 
Lembro da tua mão tão nervosa segurando a minha pela primeira vez... Sê feliz! Sê feliz, mesmo que para sê-lo preciso for que eu parta!
Ainda ouço os carros, vejo as pessoas, sinto a poluição. É tudo tão cinza! O céu, o chão, as pessoas, minhas roupas. Parece um uniforme de cidadão, algo assim.

Sinto sua falta...

- RECOMPONHA-SE! - Disse o cachecol logo abaixo do meu rosto.

- Tu não mandas em mim, és uma peça de roupa! Eu quem mando, eu que te uso!

- Mas sem mim você passa frio! - retrucou - De tantas lágrimas que sequei, estou cansado! Pare já! Pensas que vai chorar pra sempre por ele? Que tens na cabeça?!

Não entendo porquê agora deu para reprimir meus sentimentos. Devia largá-lo em um brechó qualquer!



Mas bem, quem é ele?
                                      Meu tempo de sanidade...
                                                                                          O cachecol, meu psiquiatra...
                                                                                                  E eu a paciente.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

A Dama de Preto


 Mais um dia se passou, apenas vi as trocas de luzes no céu...

           É engraçado esse cárcere de mim, o aprisionamento do eu.
   
Eu, esta garota calada.
         
         A solidão daqui é uma coisa engraçada, ela é silente e sempre me sorri, sabendo quando penso em você, então me abraça. É caridosa, gentil talvez.

          Embora torturante, gosto de sua companhia, é um anestésico para esse estado de morte súbita nessa casa vazia, como uma boa dose de lidocaína na pele antes de perfurá-la, algo assim.
           De tanto ficar aqui, parece que casei-me com esta sempre presente mulher, porém ela não está aqui. Isso faz sentido?

           Magra, tão magra que diria que tem um corpo anoréxico. De dentes amarelos sorri a alegria que não tem, sempre com um cigarro entre os dedos e uma xícara de café posta à sua frente. Fala. Fala friamente, não por estar amargurada, mas pela falta de emoções e sentimentos que talvez morreram ainda na juventude.


         Mas ainda ama! Ama com uma doçura pueril, um destaque tão marcante quanto o batom vermelho habitual naquele emaranhado preto e branco de cabelos e pele. 
Tão minha! Sim. Tão minha que faz parte de mim.






Minha doce solidão.
Minha dama de preto.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

A cena

    Imagine só... Sua mãe morta.

            Você, inconsolável, sentado à beira do sofá, com sua doce amada, de cabelos negros, ao seu lado. Aproximei-me subitamente, sem expressão no rosto. Palavras nunca diriam o que sentia, porém, ainda que completamente absurdo, naquele momento, não sentia. Sentia nada. Seu pai, completamente absorto naquela imagem de sua esposa ao chão, como se ela ainda estivesse ali, morta, porém com o sangue quente.

            - Por que me chamou aqui?

            - Minha mãe gostaria que viesse.

            - Desnecessário usá-la como desculpa.

            Enquanto rumava à porta, minha cabeça vagueava num transe anestésico que não me deixava perceber o que acontecera ali. Um assassinato. Um homem recém-formado acabara órfão de mãe e seu pai acabara viúvo. Karen movia-se agitadamente de um lado para o outro da sala, com seus belos cachos reluzindo entre a pouca luz que passava pela cortina semicerrada; eu a observava com desdém. Por que não se adequava àquela situação e simplesmente aquietava-se, empoleirada no braço do sofá como eu a encontrei quando cheguei? Por que estava tão inquieta?

            - Sarah... Precisamos conversar.

            - Jonathan... Não temos mais nada para conversar, cuide de sua noiva e de seu pai. Henry está péssimo, eu bem que gostaria de ajudar, mas não sou mais membro da família, Karen é.

            E, saindo, fui segurada pelo braço; a força não era agressiva, era suplicante.

            - O que quer...?

            - Por favor, fique.

            Karen parecia um tanto quanto calma... Calma demais. Naquela noite cuidei de fazer o jantar, aquela mulher não tinha o mínimo dote culinário, embora fosse rechonchuda como uma porca. Pobre Henry, sequer tocou a comida... Durante o jantar, houve alguns olhares um tanto inquietantes. Henry, melancólico, brincava com a comida em seu prato como uma criança que tenta pular a refeição para a sobremesa; Karen me observava de tal forma que parecia me cortar em pedaços e Jonathan, que se apressava em comer, logo deixou a mesa. Retirei-me em seguida. Karen me seguiu.

            - O que quer aqui?! Você não é bem-vinda nesta casa, Sarah.

            - Imaginei que não. Porém, até que realmente se case com Jonathan, esta casa não te pertence. Henry precisa de alguém que saiba cuidar dele. Creio que ele confie mais em mim.

            - Apenas vá.

            - Eu até iria, mas Jonathan disse que havia algo a tratar comigo.

            Ah! Sim. Aquela sensação... Adorava despertar o ódio da doce e gentil Karen. Segui para a varanda dos fundos aonde Jonathan fumava lentamente um cigarro. Levou um susto quando lhe toquei no ombro.

            - Oh! Creio que devia ter-me anunciado...

            - Não seja irônica, Sarah... Você não tem ideia do que tem acontecido aqui. Minha mãe não era só uma cartomante.

            - O que quer dizer com isso? Se vai dizer que ela estava certa sobre nosso casamento, sinto muito, mas...

            - A Karen... Ela...

            Subitamente, Karen apareceu, pôs-se de pé ao lado da porta.

            - O que ia dizer sobre mim, querido?

            - Estava dizendo a Sarah que talvez você gostasse de se juntar ela nessas... Hum... Coisas de mulher.

            - Ah! Claro! No dia em que ela souber se portar como uma. Querido, venha logo para a cama, sim?

            - Me deixe terminar o cigarro e já vou.

            Karen saiu deitando-me um último olhar como quem me desejava morta naquele exato momento. Jonathan parecia temeroso, como quem vê um assassino ardiloso debaixo do vestido fino e dos fitilhos no cabelo. Retomou o assunto, sussurrando, com o olhar em pânico.

            - Minha mãe viu Karen matá-la...

                                                                                           
                                                                                                   Continua...